quarta-feira, 2 de outubro de 2013

era

Era mais que um par de olhos mansos, eram águas para mergulho, rio que o leva consigo em seu fluxo. Era afogar-se. Não eram apenas lábios, batom claro e um sorriso. Era arte, simetria, curvas formando labirintos espiralados, hipnóticos. Era encantar-se.  Era muito para serem apenas cabelos esvoaçantes. Era manto, fibras de ouro, brilho, calor. Era acalentar-se. Era uma mulher, e pouco apropriado para uma descrição dela. Era musa, inspiração, quase uma deusa. Era uma nova paixão platônica a cada novo minuto. Era apaixonar-se.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

06/09

Estou tão virgem que nem sabia que hoje era dia do sexo até a última checada em meus e-mails. Ninguém havia me convidado para fazer nada exatamente, mas aquele seis próximo ao nove me lembrava algo. Me perguntei se a venda de preservativos aumentava como a de meias no Dia dos Pais ou a de flores no Dia de Finados. Imaginei os sex shops às dezenas, mulheres pela loja observando discretamente os homens sozinhos, solteiros. Elas sabem como identificar essas coisas. A nós homens, são detalhes dispensáveis. Mesmo de aliança no dedo, em dias como este, toda mulher é livre para ser flertada. Todo homem é livre para levar um toco. A do bar me disse não, e nem explicou as razões. Não e ponto. Não e exclamação para demonstrar todo seu desgosto. Não na segunda, terceira e quarta tentativa. Okay. Era o “sim” da quinta mulher, ao menos foi como o interpretei. Eu havia mudado a abordagem. Nada de “Eu. Você. 6/9” e as bochechas roxas com os cinco dedos dela estampados acima da barba. “O que acha de irmos para um lugar mais reservado?” até parecia charmoso no começo, mas minha língua coçava desejando prosseguir. “Um lugar que possamos ficar pelados sem ninguém nos incomo—“. Ela sequer me deixou terminar a frase. Mas para a quinta fui franco, disse minha intenção de modo direto. “Que tal passar aqui no meu apartamento hoje?” disse. “Okay”. Abandono a calça e a camisa, troco o samba-canção por uma box. O som toca What Goes Around... Comes Around, como ela gosta. Vinte minutos depois ela aparece. Confiro as cervejas na mesa de centro — os livros e papéis soltos foram para trás do sofá. Abro a porta, ela está mais vestida do que eu e sorri desinibida.
— Engraçado — ela diz, me surpreendendo — como os anos de amizade nos levam a esses momentos tão íntimos.
Laura aperta os olhos, aumentando o sorriso.

Assistimos In Time hoje à noite.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

lembrete: jamais me esquecer de carregar sempre uma caneta

Sexta-feira. Ainda está à tarde. Ela segue cinza e monótona dentro do meu apartamento. Laura veio ontem aqui, me entregou duas carteiras de cigarro e me pediu novas histórias. Eu não penso mais em nada, não consigo uma palavra sequer sobre o papel. Laura não me cobra. Está ocupada com o cara que lhe deu uma aliança. As pessoas saem do trabalho agora, eu deito os braços sobre a janela e fico imaginando para onde seguem ao dobrarem a rua.  Os carros brilham pela Ipiranga e observá-los sempre me causa vertigem. Vou para o banheiro e erro o sanitário. Todo o chão está sujo e abandono o apartamento para não ter que limpar aquela bagunça. Caminho pela calçada até o bar mais próximo e desço cerveja e bile pela garganta. Ouço as conversas que me alcançam pelas laterais e nada eu poderia aproveitar em um romance. Jogo a cabeça para trás, a luz alcança meus olhos e me cega por alguns minutos. Estou concentrado na música que vem das caixas de som afixadas nos pilares, ela é calma e triste. Não entendo o paradoxo — a tristeza nunca acalma. A luz se apaga dos meus olhos e ascende dentro de mim, onde nasce o engenho. Bato a mão nos bolsos enquanto a outra alcança um guardanapo. Talvez eu tenha saído tão de presa que só muni os bolsos com algumas notas e a chave do apartamento. Ando até o balcão, o homem me diz que vai tomar uma caneta e some na parte de trás. A ideia vai sumindo na minha mente. Corro para casa. Sobre o balcão ficam minhas notas e o guardanapo amassado. Abro a porta com alguma dificuldade e caminho até a escrivaninha. Duas canetas falham e na terceira tentativa perco o fio da meada. Jogo o corpo sobre a cadeira, sinto os músculos do meu rosto em uma expressão de decepção. O rosto de Laura vem à minha mente, suas sobrancelhas estão próximas e os lábios tensos. Apago sua imagem sentindo o cheiro forte do vômito no banheiro. 

sexta-feira, 19 de julho de 2013

o desejo, a surpresa, o engano e a saudade

Entendi que estava em dívida com Laura. Ela se oferece para ler meus manuscritos, cria as melhores capas e costura meus livros. Eu nunca a retribuí à altura, talvez por descuido ou por ter a cabeça cheia de personagens que me afastam do que tenho de real. Laura me disse uma vez que tinha um único desejo: conhecer meu apartamento. De início fiquei excitado e ansioso, mas no dia seguinte ela apareceu com uma aliança no dedo. Conclui que estava errado quanto à ideia dela visitar meu apartamento, então descartei futuros convites. Mas há alguns dias ela voltou com essa ideia; a aliança continuava no dedo. Eu a encontrei no bar perto de casa, ela não quis tomar nada e eu já tinha acabado o segundo copo de cerveja. Subimos para meu apartamento minutos depois, Laura e eu não trocávamos olhares nem palavras. Eu queria poder ler sua mente; seus pensamentos levianos justificava o silêncio, conclui. Abri a porta do apartamento, ela passou antes de mim sem ir muito longe. Os pés presos ao concreto, a boca entreaberta continuava emudecida e alguns traços ressaltados em seu rosto sugeriam meditação e espanto.
— Por que você mora aqui? — perguntou a mim, analisando a bagunça que percorria a sala até o corredor.
Eu não disse nada, apenas torcia para que meu rosto não estivesse ruborizado e divaguei: Meu pai havia morrido há alguns anos, nunca havíamos conversado sobre minha mãe e por tanto eu estava sozinho. Ele havia me deixado dinheiro suficiente para levar uma vida de burguês e manter o apartamento em melhores condições, mas torrei tudo no ano de sua morte. Fechei a porta e caminhei até a janela. O Copan surgido dos rabiscos de Niemeyer. Era minha lembrança de casa, um modo de não pesar a saudade do Planalto. Laura me olhou com cumplicidade, parecia compreender meu silêncio.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

primeira noite

Olho contra a janela e o vai e vem dos carros me causa vertigem. Os moleques cambaleiam pelas calçadas e gritam coisas que, do terceiro andar, eu não posso compreender. Meu apartamento é velho, as paredes descascadas e em certos pontos manchadas de mofo. Reclamo delas todos os dias, mas nunca estive verdadeiramente inclinado a repará-las. O sindico disse que não pode fazer nada por mim enquanto não pagar os aluguéis atrasados. Faz meses que não o xingo, ele vem sendo gentil permitindo que eu continue aqui. Os palavrões estão soltos dentro de mim, como um martírio. A fumaça não me afeta mais, nem as bossas de Vinícius e Tom Jobim. Várias pontas de cigarro espalhadas sobre a mesa; uma delas queimou o manuscrito, em pólen soft, que eu vinha escrevendo há quase um ano. Deixo escapar um dos meus mais leves palavrões só para não cair na abstinência. Hoje estou desmotivado e todos meus amigos saíram para beber.