sexta-feira, 12 de julho de 2013

primeira noite

Olho contra a janela e o vai e vem dos carros me causa vertigem. Os moleques cambaleiam pelas calçadas e gritam coisas que, do terceiro andar, eu não posso compreender. Meu apartamento é velho, as paredes descascadas e em certos pontos manchadas de mofo. Reclamo delas todos os dias, mas nunca estive verdadeiramente inclinado a repará-las. O sindico disse que não pode fazer nada por mim enquanto não pagar os aluguéis atrasados. Faz meses que não o xingo, ele vem sendo gentil permitindo que eu continue aqui. Os palavrões estão soltos dentro de mim, como um martírio. A fumaça não me afeta mais, nem as bossas de Vinícius e Tom Jobim. Várias pontas de cigarro espalhadas sobre a mesa; uma delas queimou o manuscrito, em pólen soft, que eu vinha escrevendo há quase um ano. Deixo escapar um dos meus mais leves palavrões só para não cair na abstinência. Hoje estou desmotivado e todos meus amigos saíram para beber.