Olho contra a
janela e o vai e vem dos carros me causa vertigem. Os moleques cambaleiam pelas
calçadas e gritam coisas que, do terceiro andar, eu não posso compreender. Meu
apartamento é velho, as paredes descascadas e em certos pontos manchadas de
mofo. Reclamo delas todos os dias, mas nunca estive verdadeiramente inclinado a
repará-las. O sindico disse que não pode fazer nada por mim enquanto não pagar
os aluguéis atrasados. Faz meses que não o xingo, ele vem sendo gentil
permitindo que eu continue aqui. Os palavrões estão soltos dentro de mim, como
um martírio. A fumaça não me afeta mais, nem as bossas de Vinícius e Tom Jobim.
Várias pontas de cigarro espalhadas sobre a mesa; uma delas queimou o
manuscrito, em pólen soft, que eu
vinha escrevendo há quase um ano. Deixo escapar um dos meus mais leves
palavrões só para não cair na abstinência. Hoje estou desmotivado e todos meus
amigos saíram para beber.