sexta-feira, 16 de agosto de 2013

lembrete: jamais me esquecer de carregar sempre uma caneta

Sexta-feira. Ainda está à tarde. Ela segue cinza e monótona dentro do meu apartamento. Laura veio ontem aqui, me entregou duas carteiras de cigarro e me pediu novas histórias. Eu não penso mais em nada, não consigo uma palavra sequer sobre o papel. Laura não me cobra. Está ocupada com o cara que lhe deu uma aliança. As pessoas saem do trabalho agora, eu deito os braços sobre a janela e fico imaginando para onde seguem ao dobrarem a rua.  Os carros brilham pela Ipiranga e observá-los sempre me causa vertigem. Vou para o banheiro e erro o sanitário. Todo o chão está sujo e abandono o apartamento para não ter que limpar aquela bagunça. Caminho pela calçada até o bar mais próximo e desço cerveja e bile pela garganta. Ouço as conversas que me alcançam pelas laterais e nada eu poderia aproveitar em um romance. Jogo a cabeça para trás, a luz alcança meus olhos e me cega por alguns minutos. Estou concentrado na música que vem das caixas de som afixadas nos pilares, ela é calma e triste. Não entendo o paradoxo — a tristeza nunca acalma. A luz se apaga dos meus olhos e ascende dentro de mim, onde nasce o engenho. Bato a mão nos bolsos enquanto a outra alcança um guardanapo. Talvez eu tenha saído tão de presa que só muni os bolsos com algumas notas e a chave do apartamento. Ando até o balcão, o homem me diz que vai tomar uma caneta e some na parte de trás. A ideia vai sumindo na minha mente. Corro para casa. Sobre o balcão ficam minhas notas e o guardanapo amassado. Abro a porta com alguma dificuldade e caminho até a escrivaninha. Duas canetas falham e na terceira tentativa perco o fio da meada. Jogo o corpo sobre a cadeira, sinto os músculos do meu rosto em uma expressão de decepção. O rosto de Laura vem à minha mente, suas sobrancelhas estão próximas e os lábios tensos. Apago sua imagem sentindo o cheiro forte do vômito no banheiro.