domingo, 2 de março de 2014

em uma nova dor

PARTE I

― Atende ― ordenou Alice, sentada à sua frente.
A ligação caiu.
― Jorge! ― a voz espirituosa vinha sobre sua cabeça.
Ele enxugou o rosto com as costas das mãos e içou o olhar. Um paredão de velhos amigos o estudava, alguns com preocupação, outros confusos ou curiosos.
O celular tocou novamente. LÉO era o nome que aparecia no visor iluminado. A melodia que só agradava a Jorge estava por acabar. Ele não se inclinou a atender aquela chamada, embora a ordem de Alice fosse clara e insistente.
― O que houve? ― perguntou uma das velhas amigas.
― Nada ― disse, sem convencer sequer a si mesmo.
Outra chamada e ele a atendeu.
Precisamos conversar, a voz do outro lado da linha atravessou.
― Melhor esquecermos isso ― respondeu, olhando para um ponto fixo no gramado.
O que você queria? Que eu simplesmente aceitasse?, indagava Léo, esperando por uma resposta e certo de que ela não viria.
― Vamos deixar como está. ― Ele falava sobre o beijo entre Léo e Stefano no sábado.
Quero esclarecer as coisas, suplicou.
― Daqui há uma, duas semanas, um mês, talvez eu já esteja mais sossegado; seu namoro mais estável e conversaremos sobre isso se você ainda se lembrar.
Você acha natural, é isso?, perguntou, e se Jorge bem o conhecia, Léo estava com o cenho franzido n’outro lado da linha. E que eu deveria, simplesmente, ignorar? Você é mesmo muito volúvel.
― Volúvel? ― Jorge negou com um aceno de cabeça que Léo não pode ver. ― Você quis dizer puta?
Léo espantou-se com a franqueza, algo que ficou claro nos minutos de atraso em sua resposta.
Aconteceu, disse, como se fosse suficiente para se explicar. Eu não planejei. Stefano estava ao meu lado enquanto você estava lá, com o Marcos.
― Esquece isso!
Eu só queria que as coisas ficassem certas entre nós. Mas se você prefere tentar com o Marcos, mesmo ele estando em Goiânia e você aqui.
― Goiânia é do lado. E não, eu não quero tentar com ele.
Então vamos tentar nós dois. E havia tanta verdade naquela proposta...
― Já estou em uma nova dor ― disse, sobre a saudade que ficou da despedida de Marcos. ― Se lembra do que éramos, Léo, e do que você disse que lutaria para continuar a sermos?
Léo se lembrava, mas não era o bastante. A ligação caiu.

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― O que foi isso? ― perguntou a velha amiga.
Jorge respirou profundamente, permitindo-se um tempo.
― Lembra que eu falei sobre o Léo?
― Sim, sobre a festa em que você ficou com uma garota ― disse.
Alice ruborizada desviava o sorriso.
― Foi exatamente ai que começou.