Sexta-feira. Ainda
está à tarde. Ela segue cinza e monótona dentro do meu apartamento. Laura veio
ontem aqui, me entregou duas carteiras de cigarro e me pediu novas histórias.
Eu não penso mais em nada, não consigo uma palavra sequer sobre o papel. Laura
não me cobra. Está ocupada com o cara que lhe deu uma aliança. As pessoas saem
do trabalho agora, eu deito os braços sobre a janela e fico imaginando para
onde seguem ao dobrarem a rua. Os carros
brilham pela Ipiranga e observá-los sempre me causa vertigem. Vou para o
banheiro e erro o sanitário. Todo o chão está sujo e abandono o apartamento
para não ter que limpar aquela bagunça. Caminho pela calçada até o bar mais
próximo e desço cerveja e bile pela garganta. Ouço as conversas que me alcançam pelas laterais — e nada eu
poderia aproveitar em um romance. Jogo a cabeça para trás, a luz alcança meus
olhos e me cega por alguns minutos. Estou concentrado na música que vem das
caixas de som afixadas nos pilares, ela é calma e triste. Não entendo o
paradoxo — a tristeza nunca acalma. A luz se apaga dos meus olhos e
ascende dentro de mim, onde nasce o engenho. Bato a mão nos bolsos enquanto a
outra alcança um guardanapo. Talvez eu tenha saído tão de presa que só muni os
bolsos com algumas notas e a chave do apartamento. Ando até o balcão, o homem
me diz que vai tomar uma caneta e some na parte de trás. A ideia vai sumindo na
minha mente. Corro para casa. Sobre o balcão ficam minhas notas e o guardanapo
amassado. Abro a porta com alguma dificuldade e caminho até a escrivaninha.
Duas canetas falham e na terceira tentativa perco o fio da meada. Jogo o corpo
sobre a cadeira, sinto os músculos do meu rosto em uma expressão de decepção. O
rosto de Laura vem à minha mente, suas sobrancelhas estão próximas e os lábios
tensos. Apago sua imagem sentindo o cheiro forte do vômito no banheiro.