sexta-feira, 19 de julho de 2013

o desejo, a surpresa, o engano e a saudade

Entendi que estava em dívida com Laura. Ela se oferece para ler meus manuscritos, cria as melhores capas e costura meus livros. Eu nunca a retribuí à altura, talvez por descuido ou por ter a cabeça cheia de personagens que me afastam do que tenho de real. Laura me disse uma vez que tinha um único desejo: conhecer meu apartamento. De início fiquei excitado e ansioso, mas no dia seguinte ela apareceu com uma aliança no dedo. Conclui que estava errado quanto à ideia dela visitar meu apartamento, então descartei futuros convites. Mas há alguns dias ela voltou com essa ideia; a aliança continuava no dedo. Eu a encontrei no bar perto de casa, ela não quis tomar nada e eu já tinha acabado o segundo copo de cerveja. Subimos para meu apartamento minutos depois, Laura e eu não trocávamos olhares nem palavras. Eu queria poder ler sua mente; seus pensamentos levianos justificava o silêncio, conclui. Abri a porta do apartamento, ela passou antes de mim sem ir muito longe. Os pés presos ao concreto, a boca entreaberta continuava emudecida e alguns traços ressaltados em seu rosto sugeriam meditação e espanto.
— Por que você mora aqui? — perguntou a mim, analisando a bagunça que percorria a sala até o corredor.
Eu não disse nada, apenas torcia para que meu rosto não estivesse ruborizado e divaguei: Meu pai havia morrido há alguns anos, nunca havíamos conversado sobre minha mãe e por tanto eu estava sozinho. Ele havia me deixado dinheiro suficiente para levar uma vida de burguês e manter o apartamento em melhores condições, mas torrei tudo no ano de sua morte. Fechei a porta e caminhei até a janela. O Copan surgido dos rabiscos de Niemeyer. Era minha lembrança de casa, um modo de não pesar a saudade do Planalto. Laura me olhou com cumplicidade, parecia compreender meu silêncio.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

primeira noite

Olho contra a janela e o vai e vem dos carros me causa vertigem. Os moleques cambaleiam pelas calçadas e gritam coisas que, do terceiro andar, eu não posso compreender. Meu apartamento é velho, as paredes descascadas e em certos pontos manchadas de mofo. Reclamo delas todos os dias, mas nunca estive verdadeiramente inclinado a repará-las. O sindico disse que não pode fazer nada por mim enquanto não pagar os aluguéis atrasados. Faz meses que não o xingo, ele vem sendo gentil permitindo que eu continue aqui. Os palavrões estão soltos dentro de mim, como um martírio. A fumaça não me afeta mais, nem as bossas de Vinícius e Tom Jobim. Várias pontas de cigarro espalhadas sobre a mesa; uma delas queimou o manuscrito, em pólen soft, que eu vinha escrevendo há quase um ano. Deixo escapar um dos meus mais leves palavrões só para não cair na abstinência. Hoje estou desmotivado e todos meus amigos saíram para beber.