Entendi que
estava em dívida com Laura. Ela se oferece para ler meus manuscritos, cria as
melhores capas e costura meus livros. Eu nunca a retribuí à altura, talvez por
descuido ou por ter a cabeça cheia de personagens que me afastam do que tenho
de real. Laura me disse uma vez que tinha um único desejo: conhecer meu apartamento. De início fiquei excitado e ansioso, mas
no dia seguinte ela apareceu com uma aliança no dedo. Conclui que estava errado
quanto à ideia dela visitar meu apartamento, então descartei futuros convites. Mas
há alguns dias ela voltou com essa ideia; a aliança continuava no dedo. Eu a
encontrei no bar perto de casa, ela não quis tomar nada e eu já tinha acabado o
segundo copo de cerveja. Subimos para meu apartamento minutos depois, Laura e
eu não trocávamos olhares nem palavras. Eu queria poder ler sua mente; seus
pensamentos levianos justificava o silêncio, conclui. Abri a porta do
apartamento, ela passou antes de mim sem ir muito longe. Os pés presos ao
concreto, a boca entreaberta continuava emudecida e alguns traços ressaltados
em seu rosto sugeriam meditação e espanto.
— Por que você
mora aqui? — perguntou a mim, analisando a bagunça que percorria a sala até o
corredor.
Eu não disse
nada, apenas torcia para que meu rosto não estivesse ruborizado e divaguei: Meu
pai havia morrido há alguns anos, nunca havíamos conversado sobre minha mãe e
por tanto eu estava sozinho. Ele havia me deixado dinheiro suficiente para
levar uma vida de burguês e manter o apartamento em melhores condições, mas
torrei tudo no ano de sua morte. Fechei a porta e caminhei até a janela. O Copan
surgido dos rabiscos de Niemeyer. Era minha lembrança de casa, um modo de não
pesar a saudade do Planalto. Laura me
olhou com cumplicidade, parecia compreender meu silêncio.